A avaliação neuropsicológica tem um papel fundamental na compreensão do autismo em adultos, especialmente porque muitos indivíduos chegam à vida adulta sem um diagnóstico formal. Diferentemente do que se imagina, o transtorno do espectro autista não surge na fase adulta, mas pode permanecer não identificado por anos devido à capacidade de adaptação, mascaramento social e à falta de informação adequada durante a infância e adolescência. Nesse contexto, a avaliação neuropsicológica se torna uma ferramenta essencial para investigar o funcionamento cognitivo, emocional e comportamental do indivíduo, oferecendo subsídios importantes para o diagnóstico clínico.

No processo de avaliação, o neuropsicólogo analisa detalhadamente o histórico de desenvolvimento do adulto, considerando aspectos da infância como socialização, comunicação, brincadeiras e padrões de comportamento repetitivo. Mesmo quando essas informações não são facilmente acessíveis, elas são fundamentais para compreender se as dificuldades atuais fazem parte de um padrão persistente ao longo da vida, característica central do autismo. Além disso, são avaliadas diversas funções cognitivas, como atenção, memória e funções executivas, que frequentemente apresentam um perfil irregular em pessoas autistas, com áreas de bom desempenho coexistindo com dificuldades específicas, especialmente relacionadas à flexibilidade cognitiva e ao planejamento.

Outro aspecto central da avaliação neuropsicológica no autismo é a análise da linguagem e da cognição social. Muitos adultos autistas possuem linguagem formal preservada ou até avançada, porém apresentam dificuldades no uso social da comunicação, como compreender ironias, metáforas e regras implícitas das interações sociais. A cognição social, que envolve a capacidade de reconhecer emoções, interpretar expressões faciais e compreender intenções alheias, também é investigada por meio de testes e observações clínicas, frequentemente revelando desafios mesmo em indivíduos com alto nível intelectual.

A avaliação inclui ainda a investigação de aspectos sensoriais e comportamentais, como hipersensibilidades a sons, luzes ou texturas, necessidade de rotina e presença de interesses restritos. Esses dados costumam ser obtidos por entrevistas clínicas e escalas padronizadas. Paralelamente, o neuropsicólogo avalia o estado emocional do indivíduo e possíveis comorbidades, como ansiedade, depressão e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, que são comuns em adultos autistas e podem confundir ou mascarar o quadro principal.

Ao final do processo, o laudo neuropsicológico descreve o perfil de funcionamento do indivíduo, apontando achados compatíveis com o transtorno do espectro autista e auxiliando na diferenciação entre o TEA e outras condições clínicas. Embora a avaliação neuropsicológica não estabeleça sozinha o diagnóstico definitivo, ela fornece informações técnicas valiosas que embasam a decisão clínica e orientam intervenções, adaptações no ambiente de trabalho ou estudo e estratégias terapêuticas. Assim, a avaliação neuropsicológica se consolida como um instrumento essencial para promover compreensão, acolhimento e melhor qualidade de vida para adultos no espectro autista.

“Ser autista não é defeito nem doença a ser “curada”. É uma forma diferente de funcionar no mundo”

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